09 julho, 2008

TECENDO A MANHÃ

"Um galo sozinho não tece uma manhã
ele precisará sempre de outros galos.
De que um apanhe esse grito que ele
e lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendo para todas no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão."


JOÃO CABRAL DE MELO NETO

17 abril, 2008

..é Fernando Pessoa, eu também!

"Mulher sentada", Di Cavalcanti


Nem sempre sou igual no que digo e escrevo.
Mudo, mas não mudo muito.
A cor das flores não é a mesma ao sol
Do que quando uma nuvem passa
Ou quando entra a noite
E as flores são da cor da sombra.

Mas quem olha bem vê que são as mesmas flores,
Por isso quando pareço não concordar comigo, Reparem bem para mim:
Se estava virado para a direita,
Voltei-me agora para a esquerda,
Mas sou sempre eu, assente sobre os mesmos pés
O mesmo sempre, graças ao céu e à terra
E aos meu olhos e ouvidos atentos
E à minha clara simplicidade de alma...

23 março, 2008

"Estratégia de terror"

GUERNICA, Picasso,1937.


Impossível passar despercebida! Não existe cor. Apenas preto, branco e tonalidades de cinza. Inquieta, agressiva, para incomodar!! Para não nos deixar esquecer as atrocidades desumanas das guerras, a angústia e o terror da bárbarie militar. Embora a destruição do pequeno povoado de Guernica(Espanha, 1937) pela força aérea nazista tenha sido a inspiração da obra do pintor, Picasso pretendia que sua obra fosse uma espécie de instrumento de denúncia contra as atrocidades da Guerra Civil espanhola e contra a eterna desumanidade do homem.

A tela Guernica de Picasso foi exibida pela primeira vez em 1937, durante a Exposição Internacional de Paris no pavilhão da República Espanhola. Algum tempo depois, em Paris, perguntou o embaixador alemão Otto Abetz ao autor da obra: "Vocês fizeram isso?", "Não, foram vocês", respondeu Picasso, que destinou os lucros das exposições de "Guernica" à causa republicana. (da France Presse, em Madri, ILUSTRADA, Folha de SP, 25/04/2007)

A "estratégia de terror", como foi chamado o ataque à Guernica, continua atual, bombardeios aéreos, ataques suicídas, batalhas sangrentas. É o que é preciso para o mundo voltar os olhos, para governantes e a comunidade internacional prestarem atenção!? Tibetanos que o digam. Suas manifestações e resistência pacíficas contra a repressão da China não ganharam tantas manchetes nos jornais internacionais.

"Faltavam carros incendiados e cadáveres? Aí estão."(Francine, colunista da Folha de SP,22/03/2008).

A obra Guernica ficou durante um longo período no museu de Arte Moderna de Nova York. Atualmente encontra-se no Centro de Arte Rainha Sofia, em Madri.

13 março, 2008

Mar à dois

esse é meu, MonetiLHuertas

POEMAS INCONJUNTOS, Alberto Caeiro

PARA ALÉM da curva da estrada
Talvez haja um poço, e talvez um castelo,
E talvez apenas a continuação da estrada,
Não sei nem pergunto.
enquanto vou na estrada antes da curva
Só olho para a estrada antes da curva,
Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.
De nada me serviria estar olhando para outro lado
E para aquilo que não vejo.
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
Se há alguém para além da curva da estrada,
Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.

Essa é que é a estrada para eles.
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.
Por ora só sabemos que lá não estamos.
Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva
Há a estrada sem curva nenhuma.